Sustinhos — «Monstruário», de Álvaro Magalhães
É fácil criar monstros, geri-los já é outra história.
O Monstruário acaba nas mãos de uma menina que, apesar de receosa, decide começar a criar monstros. Entre Pirulins, Cornetões, Taricocos e Tranglomangos, a menina rapidamente perde o controlo das suas criações.
Recomendado para 4+
Livros que ensinam a conjurar monstros são perigosíssimos e não devem ser abertos. Alguns até se «disfarçam» de livros infantis para nos atrair: despertam a nossa curiosidade, mostram imagens bonitas, mas basta ler a primeira linha para cairmos na armadilha. Já encontraram algum? Acham que estou a exagerar? Espreitem o artigo Os Livros Malditos e depois falamos.
O Monstruário — um livro raro, repleto de indicações para criar monstros — é descoberto por uma menina sem nome, numa casa algures.
O autor Álvaro Magalhães escolhe esta indefinição de propósito, para não nos sentirmos tentados a procurar este exemplar que, muito provavelmente, pertence à família dos livros malditos.
E criar monstros, como o autor bem sabe, é facílimo. O problema é mesmo esse. Basta escrever o nome da criatura numa folha, usando uma tinta especial que está no estojo que acompanha o livro. As instruções são (propositadamente) vagas — qualquer leitor prudente desconfiaria — e não explicam a personalidade nem o comportamento de cada monstro. As «receitas» apenas ensinam a criar e avisam que certos monstros não são compatíveis entre si. Nada mais.
O primeiro monstro escolhido pela menina é o Pirulin. O nome lembra aqueles tubos de bolacha de chocolate e avelã, por isso parecia uma escolha segura. Doce no nome, doce no comportamento, certo? Errado. O Pirulin é feio por fora e por dentro. Faz asneiras, é malcriado e ignora todas as ordens. A menina não consegue convencê-lo a deixar as suas coisas em paz. Fazer chichi na cama é, para ele, uma atividade perfeitamente normal. A menina, já a imaginar o sermão da mãe, arrepende-se amargamente de o ter criado.
E, então, surge o verdadeiro problema: como «descriar» um monstro? Para horror nosso e da menina, percebemos que, no Monstruário, não há volta atrás. O que está feito, feito está.
A partir daqui, o desespero instala-se. A menina tenta criar novos monstros para afugentar os anteriores, mas cada tentativa só piora a situação. Com tamanho de gato, compostos por partes de animais, desajeitados e travessos, os monstrinhos semeiam o terror.
Como é que tudo acaba? O que acontece aos monstros? E à menina? O quarto sobrevive? Só posso dizer que este bestiário, imaginado por Álvaro Magalhães e ilustrado por Julia Lulis, não é indicado para quem se incomoda com balbúrdia e desorganização.
Publicado pela Porto Editora, Monstruário é uma espécie de Gremlins para crianças, com monstros que não assustam, mas desarrumam — e muito.
Tem um ritmo perfeito para a leitura em voz alta e um humor que funciona para todas as idades.
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Marta Nazaré
Marta Nazaré, nascida em Lisboa, a 5 de março de 1981, é formada em Letras e Tradução de Inglês. Dedica-se a tempo inteiro à tradução de livros infantojuvenis e à legendagem de filmes e séries.
Descobriu o terror em tenra idade na papelaria do bairro que vendia a coleção «Arrepios», de R. L. Stine. Ainda hoje, o terror infantojuvenil é o seu género preferido.





