Inimiga Imaginária

Inimiga Imaginária de Liliana Duarte Pereira   A primeira vez que vi a Crocante, tinha seis anos. Estava de pé, encostada ao meu guarda-vestidos, de cabeça baixa, fixa na ponta dos dedos dos seus pés descalços. Chamei-lhe Crocante porque os ossos dela estalavam conforme se mexia. Quando se endireitou, vi que lhe faltavam os olhos, o nariz e a boca. Ainda assim, a voz dela saía…

O Furo

O Furo de Vanessa Barroca dos Reis   Quão azarada tem uma pessoa de ser para ter um furo a meio da noite, numa estrada secundária, com uma barra de rede no telemóvel que aparece e desaparece, em caprichos intermitentes? Contar já estar em casa. Ligar as luzes de emergência. Pôr o triângulo uns metros atrás do carro. Vestir o colete reflector, entre suspiros audíveis na noite…

Ámen

Ámen de Patrícia Sá Superbia Deves levar uma vida humilde. Os teus feitos não são mais do que gotas no imenso oceano que é a vida. Esse brotar alegre e quente não te vale de nada. Não foi nada de mais. Tu não és nada de mais. Não és nada.   Avaritia Deves ser generoso. Dá a quem menos tem. Não cobices. Sabes o preço da hybris. Essa faísca que um dia flamejou no teu olhar?…

Mamã

Mamã de Martina Mendes   Quero que saibas que segui as tuas regras. Não falei com estranhos. Fui a boa menina que me ensinaste a ser. Disse «olá» e «obrigada». Respeitei os adultos. Não revirei os olhos ou respondi torto. Fiz o que sempre me disseste. Mas, agora, não sei o que fazer. Por favor, ajuda-me. Sei que estás perto. Oiço os teus passos ecoarem na madeira por cima…

Onde Estou?

Onde Estou? de Marta Nazaré Acordou sobressaltado. Sentia-se comprimido. Desorientado. Estava escuro. Asfixiava. Era difícil mexer-se. As mãos frias ladearam o cubículo. O coração saía-lhe do peito. Onde é que eu estou? Faltava-lhe o ar. Trémulo, tentou orientar-se. Sufocava. Bateu com as mãos no teto. Pontapeou. Nada. Tenho de sair daqui, pedir ajuda. «Socorro! Está aí…

Quando o Cão Negro Adormecer

Quando o Cão Negro Adormecer de Marta Nazaré «Just like the curse, just like the stray You feed it once, and now it stays I'll tear me open, make you gone No longer will you hurt anyone And the fear still shapes me So hold me, until it sleeps.» Metallica, Until It Sleeps   Contemplo mais uma vez os rochedos da morte. Espreito por entre estalagmites formadas pelo gotejar…

Estou a Ver-te

Estou a Ver-te de Patrícia Sá Diziam-me que era daqueles paranoicos que acham que estão sempre a ser perseguidos. No entanto, só a segunda parte dessa frase é que estava correta, porque eu era, de facto, constantemente perseguido. Ser invisível não fazia do perseguidor outra coisa que não isso mesmo. Este, além de invisível, era impalpável. A única forma que tinha de saber que ele…

Entrevista com o «Nelsenstein», autor do conto «Os Dois Terrores», e a sua mãe, Ânia Mendes

Entrevista com o «Nelsenstein», autor do conto «Os Dois Terrores», e a sua mãe, Ânia Mendes «Acho que é preciso a sociedade perceber que há portas que costumamos fechar, mas que, abertas, podem contribuir para uma sociedade melhor» Em abril, a Fábrica do Terror recebeu uma mensagem via redes sociais que encheu o coração de todos os Operários. A mãe de um adolescente, o Nelson, enviou-nos…

Creio em Deus-Pai

Creio em Deus-Pai de Liliana Duarte Pereira   Tia, ouço-a a dizer o meu nome completo e a rezar em voz baixa. As suas preces saem enroladas na rapidez do desespero. «Deus te desencante quem te encantou Deus te desinveje quem te invejou Deus te desenleie quem te enleou Deus te desamarre quem te amarrou.» Tia, estou atrás de si com a mão pousada no seu ombro. Bocejei…

A autora Patrícia Sá

A autora Patrícia Sá conta-nos sobre a sua descoberta do terror português e a necessidade de legitimar o género «Ainda se acha que o terror é um género de homens, e na nossa antologia somos maioritariamente mulheres» Patrícia Sá estreou-se com o conto «Amor» na antologia Sangue Novo, em 2021, e, em 2022, publicará «Sangue e Cinzas» na antologia Sangue, editada pela Trebaruna. Mas não é só…

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